sexta-feira, 16 de junho de 2017

Café Montanha

Ora aqui temos à vista esse Montanha — com um ar decente, pacato, de Café do termo do século XIX. É um resto tranqüilo do Montanha de que falavam os nossos avós, e que nem sempre foi discreto como ora é.
[...] com entradas pela Rua dos Sapateiros e da Assunção — tornado café Restaurante, hoje sonâmbulo —, sucedeu, com intervalo de trinta e sete anos (será isto «suceder»?) ao tal Café das Sete Portas, que datava do princípio de oitocentos e fechou em 1827. Em 1864 Manuel Nunez Ribeiro Montanha — abriu o Montanha, e acabou por comprar o prédio. [1]

Café Montanha [c. 1910]
Gaveto da Rua dos Sapateiros (Rua do Arco (do) Bandeira)
com a Rua da Assunção

Joshua Benoliel, in AML

O tal Café das Sete Portas referido por Norberto de Araújo, ou Marrare das Sete Portas, datava dos primórdios do século XVIII, e era um dos quatro cafés que, então, o napolitano António Marrare (proprietário do afamado Marrare do Polimento, ao Chiado) fundou em Lisboa. Vigiado pela Policia nos primeiros anos da sua existência, conhecidas que eram as ideias francófilas dos seus fregueses, fora, mais tarde, centro preferido pelos partidários do vintismo. Nos meados do século, já na posse de Manuel António Peres, o Manuel Espanhol, o Marrare das Sete Portas era o primeiro café da Baixa.
Luís Augusto Palmeírim, outro memorialista da Lisboa romântica, nos Excêntricos do meu tempo, recorda-nos a sua existência como botequim de fama: «jogava-se o bilhar entre artistas, avultavam as apostas e tomavam o seu café, antes do teatro, o Epifânio e o Tasso. À noite ceiava-se a valer, e o Domingos, o gerente da casa, abria crédito aos janotas que lho pediam e que nunca mais pagavam».
Já centenário, o Marrare das Sete Portas veio até aos nossos dias, passando de proprietário em proprietário. Em 1868, quando da morte do Manuel Espanhol, o Diário de Noticias refere-se-lhe deste modo: «Forum e tribuna, escritório e praça de comércio, palco onde se representaram dramas sentimentais e comédias burlescas, o decano dos botequins da Baixa, sucessor das glórias do Nicola e de outros respeitáveis ascendentes». [2]

Bibliografia
[1]  (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, p. 54
[2] (ANDRADE, Ferreira de, Os Cafés Românticos de Lisboa)

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