Friday, 17 November 2017

Largo das Duas Igrejas: o «Salon Bleu»

Um pormenor do Largo das Duas Igrejas, num tempo em que, utilizado como centro de cavaqueira nocturna, deu pelo nome de «Salon Bleu». Uma nota curiosíssima, a um acontecimento citadino com um epíteto de tendência galante, a que ainda se assistiu na primeira década do século XX no velhinho Largo das Duas Igrejas ou do Loreto.


«Salon Bleu» se lhe chamou. E como era bem contrastante todo o movimento, quer de peões, quer de veículos, em cujo local, todas as noites — no passeio que se alongava entre a esquina do Leitão e os degraus que dão acesso a igreja do Loreto — se reunia um grupo de caturras, aos quais animava o prazer da cavaqueira — inocente ou não, sabe-se lá! — e a que não eram estranhos, segundo constava, os comentários à situação política de então. Estava próxima a ditadura franquista. E por aí se demoravam até alta madrugada, indiferentes às fases do mostrador do relógio que se destacava duma janela do 2.° andar do prédio, em cujas lojas ainda figura o depósito das máquinas «Singer». Era ali o escritório dos agentes em Lisboa da marca Zenith

Largo do Chiado [1911]
Antigo Largo das Duas Igreja ou do Loreto; loja «Singer»; relógio «Zenith»
Joshua Benoliel, in AML

Só pelas três e meia começava a debandada, e, quando o grande cronómetro marcava as quatro horas, não restavam mais do que dois dos inveterados conversadores!
O aceso colóquio, invariavelmente repetido todas as noites, acabou por ser proibido e o grupo dissolveu-se. Formavam cercle, D. José Mesquitela, D. João Vilafranca, Álvaro Simões, Francisco Parreira, Teles Pinto, Rodrigo Medeiros, D. Fernando Angeja, António Raposo, Luciano Monteiro, Camilo Pessanha e outros mais.
Foi por essa altura que o largo sofreu sensível remodelação na geometria dos passeios e na iluminação. Dotaram-no com um novo candeeiro de grande envergadura e projecção iluminante, equipado com uma lâmpada eléctrica de elevada potência.

Largo do Chiado [c. 1901]
Antigo Largo das Duas Igreja ou do Loreto
Fotógrafo não identificado, in AML

Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, pp. 98-99, 1987.

Wednesday, 15 November 2017

Pátio da Pascácia, da Sociedade ou das Laranjeiras

Eis-nos na Rua de Santa Cruz [do Castelo] — na companhia de mestre Norberto de Araújo —, onde podes notar êsse prédio [...] dos três representativos do Castelo; é o n.° 74. Guarda exteriormente um certo aspecto, e tem também um pequeno pátio, «das Laranjeiras», sem nenhuma expressão. A fachada acusa restauro dos fins do século XVIII, e na traseira nota-se uma varanda, muito decorativa, guarnecida de azulejos policromos [vd. 2ª imagem], tal um terceiro pavimento sôlto do edificio.

Casa nobre na Rua de Santa Cruz do Castelo, 74 [1954]
Varanda guarnecida de azulejos policromos
Fernando Martinez Podal, in AML

A escada marca o tipo reedificador do fim do século do Terramoto, com os seus dois arcos, um dos quais abre para a escadaria, de silhares de azulejo. As salas eram belas; têm sido desprovidas do seu encanto ceramista. [...] Foi dêste edificio, sede de um clube local que aqui já não existe, que saíu em 1935 a «Marcha do Castelo», uma das quinze organizações bairristas que animaram as festas de Lisboa por essa época. ¹

Casa nobre na Rua de Santa Cruz do Castelo, 74 [1961]
Varanda guarnecida de azulejos policromos
Armando Serôdio, in AML

Popularmente conhecido por Pátio da Pascácia deve o nome a uma conhecida parteira da freguesia. O seu pátio nobre pertence a uma antiga casa apalaçada do séc. XVII, sofreu alterações após o terramoto, que resultou numa feição pombalina, hoje muito adulterada por mutilações associadas a alteração de usos, tendo mesmo, em tempos, albergado uma padaria. Existem vestígios de traçado maneirista quer na fachada principal quer na posterior; nesta ultima, que dá acesso ao interior, podem observar-se, da época pombalina, painéis de azulejos. Encontra-se ainda uma casa de dois pisos que serve de moradia. ²

Casa nobre Rua de Santa Cruz do Castelo Data(s):    [194-]
Pátio da Pascácia

Amadeu Ferrari, in AML

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. III, p. 26, 1938. 
² monumentos.pt

Sunday, 12 November 2017

A Rua da Rosa das Partilhas e o Cunhal das Bolas

Dávamos alguma coisa para saber  — questiona-se Norberto Araújo — quem foi ao certo a senhora Rosa das Partilhas. E que partilhas foram aquelas. Só nos chegou que encheu o bairro de demandas bulhentas, e que esta rua, na qual certamente a senhora Rosa morou e morreu de velha, nunca deixou de ser Rua da Rosa, «da Rosa das Partilhas» no final de quinhentos. É a mais comprida artéria do Bairro Alto, única que o corta de ponta a ponta.Seria a «rua dereyta» — se fosse torta e possuísse o pitoresco estendal da sua irmã paralela, a da Atalaia. (...)

Esquina  da Rua da Rosa (das Partilhas) com o Cunhal das Bolas [c. 1960]
Cunhal revestido de meias esferas em relevo
Estúdio Mário Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

O padrão desta rua, tão lisboeta, assenta no Cunhal das Bolas, essa curiosidade bairrista, sem a expressão e o pitoresco arquitectónico da Casa dos Bicos, mas falador à sua maneira. Ele nos diz que o edifício antes de ser Hospital de S. Luís, pertencera aos «Meios do Cunhal das Bolas», e fora erguido por um judeu, tão rico que «no cunhai pretendera figurar pomos de ouro». Um judeu a copiar as ostentações do filho de Afonso de Albuquerque! Histórias, como muitas desta Lisboa por aí fora, onde a cada canto se aninha uma fábula ou se albergou uma tradição.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, pp. 138-139

Friday, 10 November 2017

Pâtisserie Bijou

Uma das mais fortes impressões que o touriste leva de Lisboa, além da recordação perfumada dos nossos edís, é a desnacionalisação, o internacionalismo de Lisboa. Assim, depois de exautorado no Golden Palace, de perfumado na Bonheur des Dames (a que alguns chamam Malheur des Maris), de almoçado no Royal Restaurant, o estrangeiro não vê por toda a parte se não taboletas, dísticos, anúncios, réclamos, títulos, placards, em todas as línguas, monos em português. Se lancha é no Rendez-vous des Gourmets ou na Patisserie Bijou, se compra uma camisa é na Maison Blanche; se compra flôres, na La Ville de Paris; se escolhe um fato, no Old England; se se hospéda, é no Avenida Palace, e até se vai ao medico ou toma banho tem o Salon des bains e o Cabinet orthopédique. ¹

Pâtisserie Bijou [1929]
Avenida da Liberdade esquina com a Praça da Alegria
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Já agora lembro-te uma «Pastelaria Bijou» que existiu longos anos aqui na Avenida — recorda o ilustre Norberto de Araújo —, esquina norte do comêço da rampa da Praça da Alegria, n.°s 91 a 103; desapareceu em 1936, e em seu lugar abriu a 3 de Setembro de 1938 o «Café Restaurante Moderno» (...) ²
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Bibliografia
¹ ABC: revista Portuguesa actualidades, 1920.
² ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIV, p. 28.

Wednesday, 8 November 2017

Mirante da Calçada da Cruz da Pedra

E, Dilecto, chegamos ao sitio das Portas da Cruz da Pedra — escreve Norberto de Araújo —, cujas casas que a flanqueavam ainda se viam há vinte anosn [c. 1920] na singularidade deste prédiozito, afunilado, em prôa de navio voltado à Rua da Cruz da Pedra, e com um alto «deck» de varanda ao alto. ¹


Luiz Pastor de Macedo, ilustre olisipógrafo que integrou a Comissão de Toponímia desde 1943, ano da sua formação, até 1947, desenvolveu na sua obra Lisboa de Lés-a-Lés o historial deste topónimo: «referindo-se ao dístico desta serventia pública diz Gomes de Brito: aliás Cruz de Pedra, memória das muitos cruzeiros que se levantavam por Lisboa, e nela existentes, averiguadamente, desde o século XV. Efectivamente, a mais antiga referência a esta rua, que até agora encontrámos, ao anunciar-nos o falecimento de Diogo Lopes Sequeira, sucedido em 28 de Janeiro de 1593, diz-nos que ele era morador á Cruz de Pedra da Madre de Deus.(…) Em 1647 ainda se dizia que fulano morava em o caminho de Chellas por cima da Cruz de Pedra, mas desde então e até aos nossos dias, a cruz deixou de ser «de pedra» e passou a ser «da pedra». (…) Quanto à sua existência, propriamente como arruamento, não devia ser muito anterior ao citado ano de 1593.» ²

 Calçada da Cruz da Pedra [1966]
Antiga Rua da Cruz da Pedra; neste local situar-se-iam os antigos   Arco e o Forte da

da Cruz da Pedra [vd. 2ª imagem]
Augusto de Jesus Fernandes, in AML

Foi este o caminho de Trânsito para se entrar em Lisboa — acrescenta Norberto de Araújo nas suas Peregrinações o traçado da linha primitiva dos caminhos-de-ferro limitou-se, afinal, a acompanhar esta estrada de conveniência. A muralha desta artéria, sobre o rio, foi construída entre 1769 e 1770, onde ficava o forte da Cruz da Pedra¹

 Calçada da Cruz da Pedra
Fragmento de uma planta do arco e forte da Cruz da Pedra

  No forte da Cruz da Pedra estava instalada em 1853 a oficina de pirotecnia do Arsenal do Exército, mais tarde transformado em armazéns da Companhia de Caminhos de Ferro
Colecção Vieira da Silva, in AML

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa», vol. XV, pp. 29-42, 1939.
² cm-lisboa.pt/toponímia

Sunday, 5 November 2017

Campo de Santa Clara

O sítio é privilegiado — afirma Norberto de Araújo —, dos raros de Lisboa destinados ao sonho e às visões retrospectivas. O Arco é, só por si, meia freguesia deste bairro fidalgo e popular, que se fez e cresceu à sombra do velho mosteiro dos cónegos regrantes de Santo Agostinho — a mais contemplativa e arrogante das vivendas conventuais da freirática Lisboa. É certo que o Arco não é antigo; data de 1807. Substitui a velha Porta de S. Vicente da Cerca Nova, de D. Fernando.
Mas o caminho que o Arco dá é tão recuado como a imagem de Nossa Senhora da Enfermaria que — dizem — esteve no arraial de D. Afonso Henriques. [...]

Campo de Santa Clara [1858]
À direita, o Palácio Barbacena; ao fundo, do lado esquerdo o Mosteiro (e Arco) do Convento de S. Vicente de Fora
Amédée de Lemaire-Ternante, in CPF

Para lá do Arco, tomado desde o largo de S. Vicente, fica o Campo de Santa Clara, com a sua largueza e a sua evocação das freiras claristas. Ficam os palácios Barbacena e dos Avintes-Lavradios; [...] ficam o Pátio de S. Vicente, que viu rodar os coches de sete patriarcas, o amor do jardim de Santa Clara, as obras de Santa Engrácia, poema de pedra insultado nas suas estrofes, e, o amor do jardim de Santa Clara, as obras de Santa Engrácia, poema de pedra insultado nas suas estrofes, e, ao cabo e ao longe, o Tejo, largo e azul, onde apenas vogam velas brancas e a lua toma banho entre miríades de estrelas. ¹

Campo de Santa Clara [1931]
Vista de N→S; Mercado de Santa Clara
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Legendas de Lisboa, p. 180, 1943.

Friday, 3 November 2017

Palácio Ulrich ou Veva de Lima no sítio dos Bemcasados

E de S. João dos Bemcasados — porquê? Claro — estás tu a pensar, e bem — porque existiria neste arrabaldino sítio uma Ermida com aquela invocação.

 Existiu, de-facto, erguida no ano de 1581, era isto um sítio campesino, de bons ares, para curas de repouso e estadia de enfermiços. O que não está apurado ao certo é se a Ermida recebeu o nome do sítio, ou se, pelo contrário, êste dela se aproveitou. Vamos por esta última hipótese. ¹


A Casa Veva de Lima ou Palácio Ulrich deve o seu nome ao Embaixador Rui Ennes Ulrich e sua mulher Genoveva de Lima Mayer, cujo nome literário era Veva de Lima. O palacete foi construído em 1894 por Joaquim Augusto Ponces de Carvalho, primeiro e único Conde de Vilar Seco. Posteriormente passaria, por herança, para a posse da casa de Anadia. É a esta família que, em 1920, o Dr. Rui Ulrich arrenda o palácio, procedendo à sua recuperação, com grande fausto e embelezamento interior. A casa acolheu o último salão lisboeta, na tradição romântica de centros de reunião de figuras relevantes dos meios literários artísticos e políticos. É também um dos poucos exemplares subsistentes de arquitetura erudita anterior ao século XX, que mantém, ao nível do vestíbulo e primeiro andar, toda a decoração e recheio originais. 

Palácio Ulrich  ou Casa Veva de Lima [1908]
Rua Silva Carvalho, 238-242, antiga do São João dos Bemcasados; ao fundo vê-se o Palácio Anadia,

do qual já aqui falámos
Machado & Sousa, in AML

A personalidade e gosto da carismática escritora e socialite, Veva de Lima, estão bem marcadas no interior, sendo visível o seu símbolo (uma borboleta ladeada por dois cisnes) em várias partes da casa. As festas e reuniões de ilustres entre os anos 1920 e 1940 foram seguidas de um período mais tranquilo sob a orientação de Maria Ulrich, filha de Veva de Lima, empenhada em actividades educativas e na Ação Católica. A esta senhora se deveu a iniciativa da venda da flor [vd. 2ª imagem] a favor das vítimas da 1º Grande Guerra (1914-1918), onde e sobretudo na zona da baixa lisboeta, senhoras elegantes vendiam e colocavam flores artificiais na lapela dos casacos de senhores.
Em 1980, o palacete é adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa e é criada a Associação Casa Veva de Lima, de acordo com os desejos de Maria Ulrich, para manter a tradições de encontros culturais e de espírito humanista iniciados pelos pais. 
À data da sua construção, o palacete desfrutava de uma magnífica vista, incluindo todo o Tejo, do nascente até à barra, bem diferente do aperto em que o colocaram as construções modernas. ²

Venda da Flor, iniciativa da escritora Genoveva da Lima Mayer Ulrich, ao centro) a favor das vítimas da I Grande Guerra [1917]
Rua Áurea com a Rua do Comércio
Joshua Benoliel, in AML

Bibliografia
¹ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XI, p. 72.
² in agendalx.pt/Tomás Collares Pereira.

Wednesday, 1 November 2017

Dia dos Fiéis Defuntos, dos Finados, dos Mortos ou das Almas

A  igreja catoliciza celebra nos dois primeiros dias de Novembro do as festas principais. A primeira em honra de todos os Santos, e a segunda em comemoração dos defuntos. A origem da festa de Todos os Santos remonta ao principio do século VII — No ano de 607 o papa Bonifácio IV, havendo obtido do imperador Phocas o celebre templo chamado o Pantheon, o purificou e dedicou à Virgem e aos mártires. Ora como o nome de Pantheon significa templo de todos os deuses, e que efectivamente naquele soberbo edifício se viam os simulacros de todos os falsos nomes do paganismo, que foram substituídos por outras tantas imagens de diversos santos, o povo conservando a memória do antigo titulo, lhe ficou sempre chamando o templo de todos os santos. Ora como não era possível festejar separadamente todos os santos, cujas imagens ali se veneravam, o papa lembrou--se de instituir uma festa só para todos os santos, que desde então se ficou celebrando em Roma, porém, foi somente nos primeiros anos do século IX (835 d.C.) que o papa Gregório IV. mandou que esta festa fosse recebida em toda a cristandade, e celebrada no 1.º de Novembro.
A comemoração dos defuntos foi pela primeira vez celebrada, no décimo século, por Santo Odillon, abade de Cluny (998 d.C.), e brevemente se espalhou por toda a França, mas foi mais de um século depois que a igreja universal a adoptou [foi, porém, no século XIII que esse dia ganhou uma data definitiva: 2 de Novembro]. ¹

Tomando emprestado ao texto do clássico Diccionario  da  Lingua  Portugueza de António de Morais Silva — a mais importante referência na história da lexicografia portuguesa dos últimos 200 anos — a definição para o termo morto encontramos o seguinte:
§, Morto, Defuncto, Finado, empregão-se estes tres vocabulos para significar o homem, que cessou de  viver: esta é a sua synonymia: mas cada um delles exprime por diferente modo a mesma idéa. Morto é o termo proprio, com que significamos precisamente o estado de um ser, que deixou de ter vida; e por isso se diz genericamente não só do homem, mas tambem dos animaes, e ainda de outros seres em que consideramos vida: assim dizemos homem morto, animal morto, planta morta, fogo morto, etc. Defuncto e finado são termos figurados, que empregamos, por eufemismo, em lugar de morto, mas sómente fallando do homem. V. Synonymos por D. Fr. Francisco de S. Luiz, t. 2. pag. 127.] ²

Praça Dom Pedro IV, funeral [etre 1903 e 1908]
Rossio, lado poente; a seguir à loja com o toldo, começa a Calçada do Carmo

Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House
(*) local não identificado no arquivo

Para aligeirar o tema lançamos mão de um antigo conto — Os Mortos na Crendice Popular por Adelino Reis de Sousa — cuja história reza assim:

Amanhã, tia Micaela, é dia dos Fieis Defuntos. Os sinos: tlin... tlão... tlin... tlão... enchem-me a alma de tristeza.
— E a mim, também, tia Brígida; mas que lhe havemos de fazer? Dizem que neste dia, os mortos se levantam dás sepulturas e vêm, à hora da meia-noite, visitar a família.
— O ano passado, tia Micaela, pareceu-me ouvir uns passos na cozinha.
— Talvez fosse o seu defunto homem. — Se fosse, ele, vinha ter comigo e contava-me se a sua alminha está em bom ou mau lugar. Amanhã, tenciono ir ao cemitério pôr-lhe um ramo de flores na campa. Vou de dia, porque o ar da noite é muito perigoso.
— A tia Zefa do Cantinho morreu, há três anos, com um ar que lhe deu, ao passar à meia-noite, pelo cemitério. Tinha ido, já bastante tarde, ao moinho das Pedras Brancas, buscar uma saca de farinha para cozer o pão, no dia seguinte, de madrugada. No moinho demorou-se muito a tagarelar com a mulher do moleiro. Quando voltava, para casa, passou junto do adro da igreja, que dá para o cemitério. Vinha fatigada, porque a saca era de dois alqueires. Pousou-a no chão, para descansar um pouco. No relógio da Torre dava meia-noite. De repente, olhou para o adro e viu, uma grande procissão: muitos homens vestidos de branco, com uma tocha acesa. — «Ora, esta! cochichou, consigo, a tia Zefa; — uma procissão, a estas horas da noite?!» — Lembrou-se, então, que era dia dos  Fiéis Defuntos. — «E se eu pedisse, a algum deles, que me ajudasse a levantar a saca?» Dito e feito. Aproximou- .se, e disse para um: — «Ó tiosinho, ajuda-me a pôr esta saca à cabeça ? — «Não posso, respondeu o defunto; estou muito fraco, morri de maleitas.» A tia Zefa reconheceu, entre os defuntos, um compadre, que tinha morrido havia três anos. Dirigiu-se a ele: — «Ó compadre, ajuda-me a pôr a saca à cabeça?» O compadre saiu da procissão e foi ajudar a comadre a erguer a saca, e disse-lhe:
— «Ó comadre, não lhe torne a suceder outra. Vocemecê não sabe que é um grande perigo passar pelo cemitério, a estas horas, e principalmente, na noite d'hoje? Adeus, não me posso demorar. As sepulturas ainda estão abertas, mas vão fechar-se. Dê muitas recomendações a minha mulher, e diga-lhe que a minha alminha está em bom lugar.»
— «Adeus, compadre, e obrigadinho.:.».³

Rua Alexandre Herculano, carro funerário [etre 1903 e 1908
]Casa Ventura Terra
Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House
(*) local não identificado no arquivo

Bibliografia
¹ Archivo Popular, Vol. 2, p. 376, 1838  
² Diccionario  da  Lingua  Portugueza de António de Morais Silv, t. II, 183
³ REIS de SOUSA, Adelino, Contos prosápias e facécias, p. 12, 1960
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