Friday, 16 February 2018

O viaduto de Xabregas (e os seus arcos)

Coloca-te comigo defronte da Fábrica de Tabacos — convida Norberto de Araújo — e contempla êste quadro pitoresco que nos é dado pelo desenho dos três viadutos sucessivos da linha férrea; ao fundo norte, sôbre a cortina de guarda da ponte na extrema da Rua da Madre de Deus, espreita a agulha da antiga igreja, e à nossa direita desenha-se a aguarela pobre de um mercado de ar livre, sob a fachada poente da Escola Profissional D. Maria Pia, no Largo da Marquesa de Niza. 


Viaduto de Xabregas [1938]
Rua de Xabregas; á direita avulta o Palácio do Marquês de Nisa e à esquerda espreita a agulha da Madre de Deus
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Não me fatigo na repetição do fenómeno da paisagem social: tudo isto há dois séculos atrás era de feição conventual e nobre: o Palácio dos Marqueses de Niza, a um lado, o convento dos franciscanos de Santa Maria de Jesus, a outro. Sem linha férrea nem passagens sobre viadutos, sem edifícios fabris, armazéns e oficinas, sem cortinas de prédios a encobrir o rio — largo como um mar —, Xabregas, «Enxobregas» dos séculos velhos, era arrabalde, tímido de póvoas ao acaso, luminoso e lavado.
No século passado, aí por 1840, a transição estava feita. já to disse atráso silvo substituiu o sino, o americano› tomou o lugar das sejes, o fumo das chaminés confundiu o cheiro dos incensos e das flores dos jardins.
Mutação assim em parte alguma de Lisboa se verificou.¹

Ponte de Xabregas [1857]
Desenho de Manuel Maria Bordalo Pinheiro, gravura em madeira de João Maria Baptista Coelho
in Archivo pittoresco

A gravura representa a ponte de Xabregas — pode ler-se no Archivo pittoresco datado de 1857 —, lançada enviesada a 33º 30' sobre a estrada publica. Compõe-se de três arcos. Dos dois do lado da trincheira, á direita, a gravura só representa o primeiro; são de pedra em arco de circulo, de 1,52 de flecha; 2,97m d'altura de pés direitos; e 6,85m de abertura de cada um. A abertura do arco do lado do aterro, á esquerda, que cobre a estrada propriamente dita, é de 15,58m, formado por 6 cambotas de ferro de forma abatida. A largura entre as testas da ponte é de 7,72m. A parte de ferro [substituída em 1954] é obra de Inglaterra [John Sutherland e Valentine C. L]. O espectador, colocado entre a ponte e a fonte da Samaritana, vê desfilar por sobre a ponte, em direcção á estação principal, um comboio; por cima correm os fios do telegrafo eléctrico; á direita, e próximo, sobressai, o angulo oriental do grande Palácio do Marquês de Niza; á esquerda, a pouca distancia, aparece a cruz, que remata o frontispício da igreja do convento da Madre de Deus. ²

Mercado de Xabregas [1939
 O Viaduto de Xabregas tomado do Largo Marquês Nisa; Palácio dos Marqueses de Niza
Eduardo Portugal, in A.M.L.

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XV, pp. 72-73, 1939.
² Archivo pittoresco: semanario illustrado - Vol. 1, 1857.

Wednesday, 14 February 2018

Rua Aquiles Monteverde

Seguindo os passos de mestre Norberto de Araújo «Chegamos ao viaduto sob a Rua Pascoal de Melo, assim designada em 1884, obra de engenharia municipal que se ampara a edificações primitivas do arruamento. À esquerda sai a Rua Aquiles Monteverde, que leva ao Bairro da Estefânia e, por umas escadas que ladeiam o viaduto, nos transportamos ao antigo Jardim Constantino — «Rossio» da Estefânia [do] fim do século XIX.»


Rua Aquiles Monteverde  [1944]
Até 1916, Rua do Conselheiro Monteverde, antes Travessa Cruz do Tabuado

Ao fundo observa-se a Rua de Arroios e o viaduto sob a Rua Pascoal de Melo (em cima)
Fernando Martinez Pozal, in AML

Emílio Aquiles Monteverde (1803-1881) foi diplomata e publicista. Entrou muito novo no serviço público, sendo nomeado, em 1821, adido à legação portuguesa de Madrid, onde serviu perto de dois anos. Incluído no quadro da secretaria dos negócios estrangeiros como amanuense de 2ª classe em 1822 aí passou quase toda a sua vida de funcionário de estado, tendo chegado a chefe da direcção política em 1869. Recebeu o título de conselheiro em 1850. Escreveu diversas obras no âmbito da língua portuguesa, nomeadamente enciclopédias e gramáticas, entre os quais O Recreio, Jornal das Famílias 1835-1842, em oito tomos, Método Facilíssimo para Aprender a Ler, 1836, e Manual Enciclopédico para Uso das Escolas de Instrução Primária, 1837.
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, p. 81, 1938.
cm-lisboa.pt

Sunday, 11 February 2018

Rua dos Sapadores, 47

Nesta vetusta casa da Rua dos Sapadores, 47 — que faz esquina e tem Lápide com o medalhão de Latino Coelho [vd. 2ª foto]a fachada principal para a Rua do Vale de Santo Antónionasceu Latino Coelho corria o ano de 1825. Era conhecida no sítio pela «casa dos frades», em razão duns columnelos de pedra (frades), que havia a pouca distância duma das suas paredes. Nessa casa, e na frente que dá para a Rua do Vale de Santo António, foi colocada, e solenemente inaugurada no dia em que se completava o 104.° aniversário do nascimento do grande escritor, uma lápide comemorativa com um medalhão de bronze, obra do falecido escultor César Barreiros, e cujo desenho, também obra sua, a nossa estampa reproduz [vd. 2ª foto]. Victimado por um ataque de «influenza de forma tifoide», faleceu Latino Coelho em Sintra, onde estava passando o verão, numa casa do Largo que hoje tem o seu nome, na madrugada do dia 29 de Agosto de 1891. 

Rua dos Sapadores, 47 [1934]
Esquina com a Rua do Vale de Santo António, 273-276
Casa onde nasceu (José Maria) Latino Coelho (1825-1891)
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século





Na frontaria da casa virada à Rua do Vale de Santo António, 272-276 foi colocada, em 1929, uma lápide da iniciativa dos habitantes da Graça. atestando que ali nasceu em 1825 o escritor Latino Coelho;

N-B. (José Maria) Latino Coelho (1825-1891). General de brigada do estado-maior de Engenharia, ministro da Marinha, sócio efectivo e secretario perpétuo da Academia Real das Ciências de Lisboa, lente na Escola Politécnica, vogal do Conselho Geral de Instrução Pública, deputado, par do Reino, jornalista, escritor.
Rua do Vale de Santo António, 273-276 [1934]
Esquina com a Rua dos Sapadores, 47
Casa onde nasceu (José Maria) Latino Coelho (1825-1891); lápide
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, 1939)
VARELA, Arlindo, «Latino Coelho poeta e amoroso», pp. 109-110, 1933.

Friday, 9 February 2018

Café Royal: — Agora sim, agora temos bife!

Aqui, no Cais do Sodré, existiu até há bem pouco tempo, o Café Royal, que pelo nome seria um chamariz para a marinhagem estrangeira que frequentava o local. Teve mais poder a banca que o adquiriu, desmantelou-o, e ali instalou a sua agência. E foi pena, porque este curioso café era ainda o símbolo de uma época, com a fachada revestida de belos azulejos, um alpendre envidraçado construído sobre ferrajaria desenhada à arte nova e bons espelhos no interior. 


Ainda conhecemos os empregados que serviam a clientela, vestidos de preto, laço no colarinho e largo avental branco tapando-lhe as pernas, à velha maneira, como ainda se encontram em algumas «terrasses» parisienses. Um destes servidores, bom cavaqueador, contou-nos a seguinte anedota verdadeira...

Café Royal [c. 1912]
Praça Duque da Terceira, vulgo Cais do Sodré, e Rua do Alecrim
Joshua Benoliel,  in A.M.L.

À hora do almoço, o Café enchia-se de fregueses, empregados das agências de navegação existentes na área. Entre os habituais, um trazia debaixo do braço uma molhada de jornais e enquanto lhe preparavam o habitual bife com batatas — que o Café tinha fama em os servir  — foi lendo. Na devida altura o criado colocou sobre a mesa a frigideira rechinando, a meia garrafa do Colares, o apetitoso pãozinho branco, a manteiga, os talheres e o copo. Mas o freguês continuou a ler o jornal. Até que, reparando na mesa, largou as notícias e iniciou o ataque ao bife. Porém, às primeiras dentadas, contra o habitual, verificou que a carne era rija! E reclamou:
Ó, Chico, este bife é intragável!
O criado, pacientemente, devolveu a frigideira ao guiché dizendo para o cozinheiro: — Olha lá isso, ó pá! O freguês diz que essa carne é rija! 
O cozinheiro, que não estaria em dia de boa disposição, disse de sua justiça e, violentamente, acompanhou as frases, ferrando com o bife no chão, espezinhando-o com a serradura. O freguês voltara à leitura dos jornais. Mas a certa altura, gritou: 
— Então, esse bife!?
Tanto o criado como o cozinheiro se haviam esquecido da reclamação, e quando aquele voltou à portinhola a gritar pelo bife — que o freguês estava furioso! — o cozinheiro olhou em volta, embaraçado esquecendo-se do que lhe havia feito! Mas ao olhar o chão, deparou com a carne negra, empapada na serradura. Apanhou-a, sacudiu-a, deu-lhe duas palmadas e ferrou com o bife na frigideira que estaria sempre sobre o fogão, fervendo a mesma gordura que servia a todos. Quando julgou que a coisa estaria em condições, prantou-a no barro limpo que servia à mesa, ajeitou-lhe umas batatas em volta, o ovo da praxe e gritou para o Chico: 
— Pronto, aqui está um esplêndido bife!
O freguês de novo largou o jornal e à primeira garfada, exclamou: 
 — Agora sim, agora temos bife!...

Café Royal [c. 1912]
Praça Duque da Terceira, vulgo Cais do Sodré, e Rua do Alecrim
Joshua Benoliel,  in A.M.L.

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do Meu Tempo (1900-1974), pp. 46.48, 1986.

Wednesday, 7 February 2018

Café-Restaurante Royal

O «Café Royal» tem boa situação na Praça, entre tabacarias que se distinguem — tal as do Rossio — pela profusão de revistas e jornais estrangeiros; não tem história recuada. Foi fundado em 1906[1904] pelos donos do Cafe Central da Calçada do Carmo (...)

Era neste Café-Restaurante que costumava almoçar nos últimos anos da sua vida, sempre acompanhado de sua espôsa, o pintor Columbano.¹


O Café Royal — recorda M. Tavares Dias na sua Lisboa Desaparecida — constitui sozinho uma página importante da história do Cais do Sodré. Em estampas oitocentistas o gaveto nascente da Praça Duque da Terceira com a Rua do Alecrim é ainda morada do alfaiate Rego. Como de costume, inscrições do toldo e da fachada exibem publicidade em inglês: Rego Tailor.

 Café Royal [Início séc. XX]
Praça Duque da Terceira e Rua do Alecrim (Hotel Bragança); Rua Bernardino Costa (dir.)
Alberto Carlos Lima,  in A.M.L.

O estabelecimento foi trespassado em 1902, adquirido por um brasileiro de torna-viagem que ali pretendia instalar um café elegante. Esmerou-se nas decorações exteriores, encomendando a J. Bonnadove desenhos vários, alusivos aos prazeres da gastronomia e da boémia. A partir deles foram estampados belos painéis de azulejo para enquadramento das portas e embelezamento das fachadas. Apeados inteiros na altura em que o café encerrou, esses azulejos versavam sete temas distintos, cujo levantamento aqui deixo a partir de fotografias e outros documentos da época.

Café Royal [1958]
Painel (central) de azulejos assinados

por J. Bonnadove
Armando Serôdio, in A.M.L.
Painel central sobre a praça: publicidade à Água Castello (figura feminina exibindo uma garrafa) [vd. 2ª foto]. Painel lateral nascente, sobre a praça: piquenique campestre com quatro convivas. Painel lateral poente sobre a praça: interior de café (três homens à mesa).  Painel poente tornejando para a Rua do Alecrim: cena de brinde com champanhe; várias figuras à mesa (uma delas, de cálice erguido, ocupava o friso vertical que constituía o gaveto do quarteirão) [vd. 3ª foto]. Painéis pequenos virados para a Rua do Alecrim: dois com motivos campestres e, ao centro, o «painel do caçador» (que teria sido inspirado pelo poeta Bulhão Pato).
A tempos espaçados estiveram inteiramente cobertos os dois painéis, à esquerda da entrada, pois desse lado instalara-se a tabacaria do café com as suas vitrinas repletas de estampas e de postais. Os desenhos acompanhavam quase toda a altura da fachada do café (piso térreo do edifício), começando a cerca de um metro do solo. Todos estavam enquadrados por molduras em relevo com motivos arte-nova, cuja policromia contrastava com o azul ferrete dos motivos principais.


Café Royal [1958]
Painel de azulejos no gaveto do
quarteirão assinados por J. Bonnadove
Armando Serôdio, in A.M.L.
Os interiores também eram modern-style (mesas monogramadas e espelhos debruados a ouro), pelo que a casa inaugurou no pino da moda em artes decorativas. Nesse ano de 1904 o Café Royal adivinhava-se futuro centro de muitas e ilustres tertúlias. Alguns meses após a fundação já o proprietário inicial o tinha em praça para trespasse por preço disso condigno, encontrando imediatamente muitos colegas interessados. O café seria então — 1905 adquirido pela família Blanco, em cujas mãos se manteve até 1959, ano do encerramento. Entre estas duas datas um mundo de luzes cintilou em volta das suas mesas. Na lista dos clientes do Royal poder-se-ão apontar, entre muitos outros, Columbano e Raphael Bordallo Pinheiro, Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro. Fernando Pessoa. Almada Negreiros, António Botto, Gago Coutinho, Reinaldo Ferreira (Reporter X), Armando Portela, Rocha Martins, Cunha Leal, Lopes Graça. Luiz Pacheco, Helder Macedo, Virgílio Martinho. António José Forte, Ernesto Sampaio, Mário Cesariny e Mário Domingues.

Foi este último escritor, conhecedor do café desde a segunda década do século [XX], quem fez a elegia da casa num panfleto publicado pouco antes do encerramento: «Conheci naquele aconchegado café tantos tipos humanos, presenciei tanto drama, escutei tanta confidência. lidei com gente tão fraternal e, por vezes, com patifes. escroques internacionais, mal disfarçados espiões que se acotovelavam com ingleses gelados e rígidos por fora e sentimentais por dentro, holandeses saudáveis, americanos mal-educados mas good-fellows; impregnei-me de tanta humanidade, armei-me de tanta compreensão e tolerância que considero o Royal o maior tesouro espiritual da minha vida.» Estas palavras de homenagem reflectem bem as múltiplas faces do mundo que, entre as duas guerras, desaguava no Cais do Sodré, encaminhando os passos para o seu principal pólo de vida: as mesas do célebre café.²

 Café Royal [c. 1910]
Praça Duque da Terceira; Rua Bernardino Costa (dir.)
Joshua Benoliel,  in A.M.L.

N.B.  No próximo artigo — e ainda a propósito deste curioso  café — contaremos uma história picaresca em que contracenam o freguês «exigente», o empregado de mesa — um tal de Chico —, um cozinheiro pouco zeloso e ainda... um  bife. A não perder.

Bibliografia
¹ ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p.39, 1939.
² MARINA, Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, vol. 6, pp. 179-184, 1989.

Sunday, 4 February 2018

Rua Fernandes da Fonseca, antiga Carreirinha do Socorro

Já agora te digo que esta Rua Fernandes da Fonseca — escreve Norberto de Araújo — (que celebra a memória do fundador da Sociedade de socorro mútuo dos Artistas Lisbonenses) recebeu esta designação em 1888; antes foi a Carreirinha do Socorro, dístico de ressonância local e alfacinha, que, fazendo parte da Mouraria campestre, foi o primeiro caminho estabelecido do Socorro, pelos Cavaleiros (antes Calçada) até Santo André. Os grandes edifícios urbanos da Rua são quási todos do segundo e terceiro quartéis do século passado.

Rua Fernandes da Fonseca [c.1900]
Convergência da Rua dos Cavaleiros (tomada da foto), Calçada da Mouraria (1ª dir.) e 
Rua do Benformoso (2ª dir.); o 3º arruamento à dir. é o Beco da Barbadela;
 ao fundo, vê-se o Elevador da Graça e a Rua da Palma
Machado & Souza, in AML

É de típica designação bairrista o Beco da Barbadela, nesta Rua Fernandes da Fonseca, e tão antigo como a Carreirinha do Socorro, pois é registado no século de quinhentos; o seu nome de principio era o de «Barbaleda» dando-se com a designação o mesmo fenómeno de corruptela toponímica, e alternada, que se deu com «Boi e Bem Formoso».
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Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. II, p. 22, 1938.

Friday, 2 February 2018

Largo da Boa Hora

Aqui temos o Largo da Boa Hora — diz Norberto de Araújo —, com seu sinistro casarão do Tribunal, o repulsivo Tribunal da Comarca de Lisboa, actualmente em obras, mas que continuará. a ser, mesmo asseado e limpo, um aleijão, simulacro ridículo de um vago Palácio da Justiça — que, parece, nunca veremos de pé.

Largo da Boa-Hora [1968]
Tribunal da Boa-Hora
Armando Serôdio, in Arquivo Municipal Lisboa

Neste sítio existiu, até ao Terramoto, o Convento dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho, construído em 1633 com esmolas do povo, mas de seu comêço ocupado pelos irlandeses dominicanos que nele habitaram até 1668, entrando depois o Convento na posse dos Congregados do Oratório de Felipe Nery, que nele permaneceram até 1674. Neste ano entraram os citados agostinlios, e só então o Convento passou a ser de N. Senhora da Boa Hora, datando dessa época (1677) a segunda Igreja, de que foram padroeiros os vizinhos Senhores de Barbacena, cujo grande palácio assentava nas cercanias do Convento. Em 1755 a casa dos frades da Bca Hora ruíu, assim como a casa nobre dos Barbacenas; o Convento reedificou-se.
Em 1834, pela Êxtinção das Ordens, logo se estabeleceram no edifício os tribunais da comarca e seus cartórios, com calabouços anexos — e que calabouços!

Tribunal da Boa-Hora, claustro [1907]
Largo da Boa-Hora
Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

Bibliografia
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, p. 32, 1939. 

Wednesday, 31 January 2018

Quiosque da Praça do Príncipe Real

Os quiosques que embelezam Lisboa a partir da segunda metade do século XIX tiveram a sua época áurea por volta de 1900. No Rossio, no Cais do Sodré, no Largo da Misericórdia, Príncipe Real, Alcântara, por esta Lisboa encontrávamos sempre um quiosque para nos vender uma caixa de fósforos ou tomar um jeropiga. 


Situavam-se em locais escolhidos, mais ou menos com a mesma fábrica arquitectónica. Tivera a iniciativa de implantar os ‹‹Kioscos››, nome com que foi requerida à Câmara Municipal, nesses tempos recuados de 1867, D. Tomás de Mello, espírito generoso, de ideias avançadas, boémio e literário, homem de teatro e até comerciante, justificando a sua proposta com o embelezamento das praças e ruas da cidade, ao mesmo tempo que seriam pequenos estabelecimentos de franca utilidade pública, como aliás já existiam nas grandes cidades da estranja! Foi aprovado o projecto dos ‹‹Kioscos››, designação depois aportuguesada, uma vez que se tornaria mais fácil para o vulgo, retirando-lhe, portanto, a sua origem oriental, lojas para a venda de tabaco e fósforos, água fresca e capilés, café e bagaço, jornais e revistas, determinando a Câmara que se estudasse o modelo e os locais onde deveriam fixar-se. 

Quiosque da Praça do Príncipe Real, nascente  [1908]
Antiga Praça do Rio de Janeiro, topónimo de 1859
Joshua Benoliel, in AML

As causas reais que levaram à demolição de muitos dos Quiosques que existiram em Lisboa são praticamente desconhecidas. Ou porque o seu estado de degradação a isso obrigasse sem que, no entanto, "merecessem" restauração, ou porque a modificação do traçado das ruas e avenidas e os melhoramentos dos passeios o tornasse imprescindível, o certo é que eles lá foram desaparecendo. E foram 45. O Quiosque da Praça do Príncipe Real, canto nascente, apresentava as seguintes características:

Estrutura
Base de madeira. Secção octogonal. Balcão de pedra suportado por pernas trabalhadas em madeira. Corpo alto com janelas a toda a volta. Cúpula metálica em forma de pirâmide com oito gomos, suportada por mísulas em madeira.

Particularidades
Particular. Muito frequentado. Apresentava uma taça em pedra para os utentes deitarem os restos das bebidas.

N.B.  Este quiosque (nascente) já aparece referenciado no Levantamento topográfico de Francisco Goullard em 1890 (vd. planta). No mesmo local foi levantado um outro que pode ser visto aqui.

Planta referente à praça do Príncipe Real [1890]
Inclui o estado da antiga Praça do Rio de Janeiro, em Novembro de 1890, e o quiosque em apreço assinalado a vermelho. 
Levantamento de Francisco Goullard, in AML

Bibliografia
DINIS, Calderon, Tipos e Factos da Lisboa do meu tempo, 1986.
CAEIRO, Baltasar de Matos, Quiosques de Lisboa, 1951.
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